sábado, 24 fevereiro, 2024
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Combater mentiras não é censura, é defender a democracia, diz Gleisi

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Julia Chaib, Catia Seabra e Victoria Azevedo

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), diz que a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou no debate de costumes pela necessidade de combater mentiras propagadas por apoiadores de Jair Bolsonaro (PL).

Em entrevista à Folha de S.Paulo, a deputada reconhece que o PT não soube lidar com disparo de ataques e notícias falsas disseminadas pelo adversário em 2018. A parlamentar rechaça ainda que decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de retirada de conteúdos nas redes represente censura. “Combater mentiras não é censura, é defender a democracia”, alega.

Gleisi nega que a campanha também esteja divulgando notícias falsas contra Bolsonaro. Sobre o tom da propaganda de Lula no rádio e TV, diz se tratar da “ofensiva” e “defesa” inerentes ao processo eleitoral.
Avalia ainda que “numa eleição tudo pode acontecer”, mas diz acreditar na vitória do petista.

P. – O resultado do primeiro turno surpreendeu?
GH – Não surpreendeu. Lula ganhou o primeiro turno, mostrando que a pauta que dominou o debate nesse período foi a da vida do povo, foi a questão do salário que não teve reajuste, o preço alto da comida, as dificuldades da população. Faltou muito pouco para a gente ganhar, mas, como ele sempre diz, Lula nunca ganhou no primeiro turno. Então, não é problema.

E as pesquisas, na realidade, não se surpreenderam tanto assim, em relação ao resultado. Porque o que se previa que o Lula teria de votos foi mais ou menos o que ele teve. Acho que o que as pesquisas não conseguiram medir foi a quantidade de votos do Bolsonaro, que também, do ponto de vista de votos válidos, não foi uma diferença tão grande do que as pesquisas traziam.

P. – Adversários do PT acusaram a campanha de salto alto com a expectativa de levar a eleição em primeiro turno. Houve excesso de confiança?
GH – Não acho. Nunca tiramos de perspectiva que estávamos disputando com alguém que está na cadeira da Presidência e usando a máquina pública como nunca antes.


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P. – O ex-presidente disse que acha impossível o Bolsonaro acabar com essa diferença de votos que teve no primeiro turno. Concorda com essa avaliação?
GH – Numa campanha eleitoral, tudo pode acontecer. Eles estão fazendo uma ofensiva muito grande com uma pauta que despolitiza e tira do centro do debate a questão que é a vida do povo. Como se o presidente fosse responsável por determinar as questões de valores, de moralidade e da sociedade. Vamos insistir na pauta que é a vida do povo.

A conversa com o povo brasileiro é que dá a Lula a condição de dizer que é impossível tirar a eleição porque o povo está sofrendo muito. Mas, obviamente, a eleição é disputada. Sabemos da dificuldade, da dureza que está essa eleição, os métodos que eles usam, as mentiras que eles propagam, a violência que eles propagam. Estamos preparados.

P. – A senhora diz que foi acertado levar a economia, o cotidiano do brasileiro, para o centro do debate. No entanto, no horário eleitoral, a campanha acabou levando também peças que falam de canibalismo, de pedofilia. Por que a campanha seguiu esse rumo?
GH – Primeiro, porque na virada do primeiro turno, eles fizeram uma enxurrada de fake news, de mentiras espalhadas pela internet, falando coisas sobre o presidente Lula, sobre o campo da esquerda que não existem. Tivemos que fazer um enfrentamento a isso, mostrar quem eles são. Que o homem que fala de moralidade não é moral. Que o homem que fala que cuida das pessoas não cuida. Que fala que quer prender bandidos, anda com bandidos. Tivemos que fazer enfrentamento. E sempre mostrando a verdade. Em nenhum dos nossos comerciais, vídeos que nós colocamos sobre quem é Bolsonaro, tem mentira.

P. – Mas acha então que o Bolsonaro é pedófilo? Que ele dá sinais de pedofilia?
GH – E também é adepto do canibalismo? Nunca dissemos que ele é pedófilo.
Mas a propaganda dá a entender isso. Sempre dissemos, quando colocamos o vídeo e o presidente falou na entrevista, que ele teve uma fala pedófila, entendeu? Que teve um comportamento. Porque a fala dele é isso. Não precisa eu recolocar aqui para vocês, vocês assistiram ao vídeo. O que que quer dizer pintou um clima, junto com meninas que antes ele falou que eram bonitinhas e que chamaram a atenção dele? É claro isso. Então o comportamento foi [pedófilo].


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P. – E a questão da carne humana, ele disse também, disse numa entrevista. Então, nós não estamos mentindo, apenas estamos expondo quem ele é.
Não é usar as mesmas armas que vocês criticam?
GH – Pergunto isso lembrando que o ministro Alexandre de Moraes deu decisões sobre posts, inclusive da sra, envolvendo esse tema, e ele diz que se tratava de fake news. Ele não deu uma decisão dizendo que era fake news, ele deu uma decisão dizendo que foi descontextualizado, o vídeo e a fala dele. Em relação às que nós ganhamos, claramente falou que eram inverdades.

P. – As pesquisas mostram aumento do índice de rejeição a Lula desde o início do horário eleitoral, quando Bolsonaro tem acusado repetidamente o ex-presidente de corrupção. Não é um sinal de que Lula ainda deve explicações ao eleitor sobre operação Lava Jato?
GH – Temos levado esse tema ao horário eleitoral, à internet, explicando que o presidente venceu os 26 processos. Teve absolvição no Supremo, inclusive na ONU. O presidente tem falado sobre isso, mas isso é um tema que tem muito tempo. Há quantos anos é recorrente essa acusação em cima do presidente? É muito tempo. Então isso volta à campanha, Bolsonaro faz uso disso, inclusive, de forma mentirosa.

Quando ele diz que Lula não é inocente, quando ele faz as acusações, isso volta com força, como sendo o principal ataque que eles fazem, mas nós conseguimos falar para a população sobre isso, se não o Lula não teria ganhado o primeiro turno.

P. – O aumento de rejeição preocupa?
GH – Porque tem uma guerra de rejeição. É a característica de uma eleição no segundo turno, infelizmente. Eles estão fazendo um ataque muito grande, muito mentiroso. Eles têm uma rede organizada, eles têm estrutura para isso. É claro que apostaram no que aumentava a rejeição. Por isso a gente está entrando com a nossa defesa também, mostrando quem é Bolsonaro, a monstruosidade dele. Ele foi agora, esses dias, para Foz do Iguaçu, fez um elogio ao Alfredo Stroessner, ditador do Paraguai, um pedófilo, matou, assassino. É esse tipo de gente que Bolsonaro cultua. Não tem como ele negar quem é.


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P. – O ex-presidente lançou uma carta aos evangélicos com compromissos. Isso suscitou a avaliação de que entraram de vez em temas pautados pelo presidente, de costumes. Por quê?
GH – Há uma necessidade de combater as mentiras, por isso que nós fizemos a carta mostrando quais são as posições de Lula. Não pode deixar uma mentira ficar prosperando para virar verdade. O que eles fazem de ataque contra nós em relação a valores e em relação às igrejas é falacioso, é mentiroso. Precisa ser esclarecido. Avaliamos muito isso. Lula tem uma postura muito correta, de não misturar a religião com política, mas pelo volume de mentiras, pela forma como eles estão usando a religião para campanha, nos sentimos na obrigação de esclarecer.

P. – Não pode prejudicar a campanha, entrar numa zona de conforto deles?
GH – Em 2018, nós não fizemos o enfrentamento como deveríamos fazer. Subestimamos em grande parte a ação dessas pequenas coisas. Nesta campanha, estamos esclarecendo. Eles também acabam fazendo o combate em relação ao que nós falamos deles, em relação às críticas à economia. Numa campanha você tem ofensiva e você tem defesa também. Temos que trabalhar com os dois campos.

P. – Ainda assim, a aprovação do governo Bolsonaro vem crescendo mesmo sob essas críticas do ex-presidente Lula. A que atribui isso?
GH – Ao pacote eleitoral que ele fez. Não foi como eles queriam, para fazer uma virada de primeiro turno. É óbvio que entraram pesado com o governo e fizeram propagandas de governo nesse período também, de feitos, de realizações de governo, jogaram pesado. Então, isso mexeu e isso começa a mexer na avaliação do governo.


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É muito preocupante a notícia que saiu, por exemplo, do Guedes estar preparando um projeto de lei que visa mudar a correção do salário mínimo. Essa gente mostra que não tem compromisso com o povo e o que fizeram agora foi exatamente a questão do pacote eleitoral. Ou seja, fizeram as medidas, isso vai estourar lá na frente e eles não vão sustentar.


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P. – O ex-presidente Lula diz que a pesquisa Datafolha alerta a campanha. A campanha está em estado de alerta? Existe risco de virada?
GH – Sempre estivemos em alerta. Em uma campanha eleitoral, você nunca sossega. Sabemos do jogo que eles fazem. Aliás, se não falássemos as verdades, não mostrássemos quem é Bolsonaro -que além de ser péssimo presidente da República, pessoa incompetente, incapaz de governar o Brasil, mostrando também quem ele é psicologicamente, a mente doentia que ele tem- , eles teriam aumentado mais essa essa aprovação de governo. Então, precisamos fazer esse embate. A campanha sempre esteve muito firme, muito alerta, sobre essa disputa. Vamos continuar assim até o final.

P. – No debate, Bolsonaro cobrou do ex-presidente Lula um nome para condução da política econômica no eventual governo dele. Ele vai ter um superministro, em caso de eleição?
GH – Lula vai ser um super presidente. Conhece o Brasil, conhece a economia, sabe o que tem que fazer e vai definir o ministério dele no momento certo após ganhar as eleições. Ninguém pode ser nomeado de véspera.

É pertinente essa cobrança de que ele deva apresentar não só um programa mais detalhado como nomes que poderiam liderar a execução desse plano? Temos um conjunto de nomes aí de economistas que já trabalham com a gente há muito tempo e outros que se somaram agora. Com essas pessoas que vamos governar. Quem o presidente vai escolher, vai depender dele, e o nosso programa é claro. As pessoas sabem como o presidente Lula governou. Então, não vejo que esse seja o problema, não.

P. – Qual a avaliação sobre a atuação do TSE para coibir a disseminação de fake news?
GH – O TSE está cumprindo o papel que tem que cumprir, o que não fez em 2018. Nós tivemos muitos problemas nas eleições de 2018, porque não tinha uma ação efetiva da Justiça Eleitoral. Ela tem que proibir as fake News, tem que coibir as coisas erradas de campanha. Está correto em fazer. Muitas vezes, a gente também recebe ações, determinações da Justiça Eleitoral, mas é esse papel que tem que fazer. O que não pode é ser um tiroteio livre, não ter regras.

P. – Algumas decisões não podem ser confundidas com censura?
GH – Por exemplo, pedido de retirada de materiais de veículos de comunicação. Combater mentiras não é censura. Combater mentiras é defender a democracia.

RAIO-X

Gleisi Hoffmann, 57 anos, deputada federal pelo PT-PR Nascida em Curitiba, é formada em direito pela Faculdade de Direito de Curitiba. Foi secretária estadual em Mato Grosso do Sul. Elegeu-se senadora em 2010 e deputada em 2018. De 2011 a 2014, foi ministra-chefe da Casa Civil (governo Dilma). É presidente nacional do PT.

Fonte: Jornal de Brasília

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